Para que escola no confinamento?

-“Olha, mãe, é a Marcela!” Alegra-se o menino ao ver a professora na tela. Em seguida, aparecem o Mateus, o Gabriel, a Luiza e tantos outros colegas que ele não via há semanas. Assim começa a “aula ao vivo”, parte da experiência em ensino remoto na educação básica que, à exceção de experiências ainda muito incipientes, não existia no Brasil. Outros recursos também são usados pelas escolas para dar seguimento às atividades durante o afastamento: vídeo-aulas, cadernos de atividades, sugestões de filmes, vídeos e experiências caseiras… Mas tudo isso para quê? Isso funciona? Os alunos aprendem assim? É possível substituir a aula presencial?

De antemão, podemos dizer que a presença do professor é insubstituível. Muitos pais e mesmo profissionais da área alegam isso dizendo que de nada vale as tais aulas online. Mas, diante da situação que nos foi imposta, o que mais a escola poderia oferecer? Temos, então, de um lado pais preocupados com a formação de seus filhos e de outro escolas se desdobrando para criar um ambiente virtual de aprendizagem e professores angustiados diante de uma função desconhecida por eles.

Sabemos, com a psicanálise, que a transferência é fundamental para a aprendizagem. A construção do saber envolve um trabalho pessoal, algo a ser elaborado pelo sujeito, que implica buscar o conhecimento no campo do Outro, de forma singular. E, no encontro com esse Outro, o corpo do professor, sob transferência, toma uma dimensão bastante particular. Um gesto, um olhar, uma risada têm uma densidade diferente, que afeta os sujeitos. O professor, inevitavelmente, é, a todo momento, convocado a lançar-se com seu corpo ou, mais do que isso, a fazer dele uma ferramenta operatória para a aprendizagem.

Mas o sorriso esboçado pelas crianças – e com adolescentes não parece ser diferente – ao encontrar a professora e os colegas do outro lado da tela deixa evidente que há algo ali que vale a pena.

Se, num primeiro momento, a quarentena significou para muitos estudantes a alforria das responsabilidades escolares e videogame a qualquer hora, com o passar dos dias a gravidade da situação foi habitando os pensamentos das crianças e adolescentes, a saudade foi encontrando onde se alojar e a escola começou a fazer falta.

Tomamos a educação não apenas como transmissão de conhecimento, mas como desenvolvimento das competências, da autonomia, e das relações sociais. Para que isso seja possível, a escola se oferece como um lugar de encontro, um lugar de encontro com o outro e com o desejo e, mais precisamente, com o desejo de aprender. A escola se apresenta, então, como um espaço de abertura no qual a criança ou o adolescente se lança em direção a construção de si enquanto sujeito ao mesmo tempo que endossa o desejo de aprender e o sentimento de pertencimento a um grupo

Não se trata, então, de substituir os encontros presenciais, mas de ocupar um lugar que não pode ficar vazio, o lugar de causa, fundamental para a construção de cada um como sujeitos.

E quando isso tudo acabar?

Bem, quando isso tudo acabar a escola deve estar lá para receber as crianças e adolescentes e ajudá-los a entender que isso não acabou. Isso vai estar para sempre na história de nossas gerações e na história de cada um e, se soubermos como fazer, poderemos sair dessa melhor do que entramos.

3 comentários em “Para que escola no confinamento?

  1. Adorei! Rico em conteúdo que faz todo sentido! Tão difícil entender os valores de hoje! Se nós estamos sentindo falta e ficamos alegres a cada encontro virtual, imagina crianças e adolescentes que sentem mas não necessariamente percebem ou verbalizam!

  2. Pensar sobre isso é importantíssimo! Tenho percebido o quanto essa situação aproxima mais os pais em relação a educação dos filhos e ao mesmo tempo angustia tanto! ‘Será que vou saber ensinar?'(uma pergunta que revela o quanto as referências atualmente estão abaladas). Desafio para todos: pais, professores e alunos…

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