A casa como espaço público e privado no confinamento

Pelo seu testemunho, a história não dá saltos, todas as mudanças que ocorrem em nossas sociedades são processuais e carregam consigo momentos coexistentes. O novo existe ao lado do velho, do mesmo jeito que o velho já carregava o novo na mochila.
Segundo o historiador Philippe Ariès, a divisão social dos espaços públicos e privados se deu, entre outras coisas, pela ascensão da burguesia. Neste contexto, o cuidado com a família, entendido como célula fundamental da sociedade, deveria ser função das mulheres e priorizado no ambiente privado, ao mesmo tempo em que aos homens era designado o espaço do trabalho, da rua: o espaço público.
As guerras, o advento dos dispositivos de controle de natalidade, a luta pelos direitos das mulheres, entre outros fatores, possibilitaram a mobilidade dos sujeitos nos diversos espaços habitados.
Se podemos agora ter alguma mobilidade no que diz respeito aos papéis de gênero, a chegada da internet de forma massiva na vida das pessoas parece ter auxiliado no borramento das fronteiras entre os âmbitos público e privado. Além dos gêneros transitarem em ambos os espaços, estes espaços parecem que se visitam.
Ainda tendo como norte a ideia de que a história não dá saltos, mas sim desliza no fio do tempo, podemos dizer que a indicação do confinamento social como medida para mitigar os efeitos da pandemia impôs à sociedade uma demanda de reorganização em função das sobrevivências biológica, subjetiva e econômica. A possiblidade dessa sobrevivência encontrou seus recursos na internet através de ferramentas que já estavam na mochila, com todos as outras coisas que já cabiam nessa bolsa colada às costas.
Assim, o trabalho, o lazer, a intimidade e a socialização passaram a ocorrer no mesmo espaço e por que não, no mesmo tempo, íntimo e público da vida.
Embora, de alguma forma, o público invadisse o privado e vice-versa, seja pelos grupos de trabalho no Whatsapp, ou pelas postagens do dia a dia no stories, agora as coisas parecem tomar outros contornos e os sujeitos começam a se queixar dos efeitos desse caldeirão. Surgem implicações da interpolação do público e do privado, como por exemplo aquelas que incidem sobre o trabalho remoto produzindo diversos efeitos sobre os corpos e as subjetividades.
Não temos uma resposta pronta, nem tampouco uma receita para o mal estar que os sujeitos nos apontam. Mas acreditamos que do mesmo jeito que foi possível uma mobilidade de gênero nos espaços, os sujeitos possam fazer seus arranjos para (re)construir paredes simbólicas, possíveis fronteiras para aquilo que considerem necessário delimitar, seja no tempo ou no espaço.
Acreditamos que nos resta inventar. No dicionário, podemos encontrar a palavra invenção como “Combinação de elementos culturais existentes, de maneira a constituir um elemento novo.” Então, busquemos na mochila da vida as ferramentas para erigir os limites simbólicos para os nossos tempos e espaços ou, tomando emprestado da mochila de Levi-Strauss, que possamos fazer as nossas próprias bricolagens.

Por Patricia da Silva Gomes

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