Qual cidade você quer ocupar?

A pandemia, subitamente, nos forçou a ficar em casa. Imagens de grandes centros urbanos completamente desertos nos trouxeram estranhamento e perplexidade. Estamos todos tendo grandes dificuldades em lidar com a impossibilidade de ocupar e fazer uso dos espaços urbanos. Mas como vínhamos nos relacionando com a cidade nos últimos tempos?

O psicanalista Giancarlo Ricci afirma que podemos aproximar a vivência das cidades com a experiência analítica, uma vez que os lugares habitados ao longo de nossa história são sempre o ponto de partida e a eles conferimos um sentido singular. As cidades de nossa história são “trabalhadas, projetadas, arquitetadas, reconstruídas por um pensamento retroativo”, não sendo necessariamente coincidentes com nossas lembranças.  Seriam cidades imaginárias, perdidas, mesmo que tenham sido habitadas, e que se misturam com os sonhos e fantasias. Suas existências, no entanto, são reais, pois se encontram na realidade psíquica.

Com Freud podemos pensar a cidade – a Urbs, cidade por excelência, considerada eterna – como um palco, uma espécie de enquadre para os desejos inconscientes. As vivências e memórias que temos dos lugares por onde passamos coabitam o inconsciente, sem que novas experiências exijam o apagamento das mais antigas. A cidade pode ser compreendida como um texto a ser lido e decifrado a partir de suas ruínas. No espetáculo das ruínas há espaço para o inédito, uma margem do texto da qual poderá surgir um novo texto. E a estrutura do inconsciente, por sua vez, apresenta-se como ruínas arqueológicas, impressões de uma civilização enterrada.  Assim, as cidades revelam a via do inconsciente, “aquela que se escuta e só pode ser seguida nas entrelinhas, para captar o interior de um sujeito que não desapareceu”.

Hipnotizados pela tela do celular, munidos de nossos pequenos gadgets, guiados pelos aplicativos, compartilhando mensagens e selfies, andávamos pelas ruas de forma errática, sem nos atermos aos detalhes dos espaços percorridos. Diversos autores, como Marc Augé e Stefano Boeri, afirmam que, de fato, nos dias de hoje testemunhamos e vivenciamos uma fragmentação crescente do território, uma vez que nosso modo de observar e apreender os espaços da cidade está desgastado, nossos olhos não encontram condições de ver o espaço que nos rodeia e que habitamos. Nossa errática experiência cotidiana do território, tem nos tornando cidadãos erráticos.

O espaço urbano já não estaria, então, esvaziado antes da pandemia? Mesmo cheio de pessoas circulando pelas ruas já não estaríamos diante de uma cidade, em grande parte do tempo, esvaziada de sentido e pertencimento? Qual cidade queremos ocupar e construir quando pudermos voltar a ocupar livremente as ruas?

Por Helena Greco

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