O virtual é real. O virtual é potência.

Sabemos que a internet faz parte das vidas das pessoas, de forma determinante, nos dias de hoje. A virtualidade inaugura uma nova maneira dos sujeitos se relacionarem, as distancias são encurtadas, os espaços de interação ampliados, o corpo em sua materialidade assume uma nova dimensão, já que o espaço virtual afasta ou evita o encontro entre os corpos. Vivemos hiperconectados, bombardeados de informações e ofertas de gadgets.

As transformações tecnológicas ocorrem de forma tão rápida que muitas vezes torna-se difícil acompanhar seus efeitos sobre os sujeitos.  Mas fica evidente que no espaço virtual as referências lógicas (tempo, espaço, instituições, hierarquias…) que nos serviam de suporte para apreender o mundo já não funcionam da mesma maneira. E isto incide na forma como as pessoas interagem e fazem vínculos no ambiente on line.

Se a virtualidade está presente na subjetividade de nossa época, como situamos a relação entre os “laços virtuais’ e os “laços reais”? Como nos alerta Marcus André Vieira, é importante entendermos que a “vida on line não é uma vida falsa”, feita apenas de fantasias. Na atualidade on line e off line  se misturam interferindo, mutuamente, um no outro.  Sabemos que já não é mais possível separar esses dois espaços. E é  justamente a passagem, ou melhor, a justaposição entre o espaço virtual e o espaço concreto (cidade, casa, escola, etc…) que nos interessa. É necessário, portanto, entender os efeitos da virtualidade sobre a subjetividade e suas consequências para a formação de laços.     

Virtual é uma palavra derivada do latim virtualis que significa força, potência.  Assim, no sentido filosófico, virtual se refere àquilo que existe enquanto potência e não em ato. No entanto, no uso corrente a palavra é empregada para significar a irrealidade. Pierre Levy ressalta a importância de se evitar a oposição simplista e enganosa entre real e virtual. O virtual se opõe ao atual, não ao real! Virtualidade e atualidade são, portanto, dois modos diferentes da realidade. É preciso, ainda, compreender que atualização não se confunde com realização. A realização refere-se a “ocorrência de um estado pré-definido” ao passo que a atualização é “invenção de uma solução exigida por um complexo problemático.”

Temos, então, a oposição entre virtual e atual: enquanto a atualização caminha de um problema para uma solução, a virtualização transforma a atualidade inicial, fluidifica as distinções e possibilidades estabelecidas. Mas a virtualidade não pode ser confundida com a passagem de realidades a possibilidades. Se assim fosse, seria “desrealizante.”

Você já parou para pensar que o virtual sempre esteve presente no mundo? Sim!  Vivemos num mundo de significações, e a significação é virtual desde sempre. A significação que damos aos significantes é imaterial, não podemos tocá-la, ela nos escapa. Como nos diz Levy, “a palavra em si, aquela que é pronunciada ou atualizada em certo lugar, não está em lugar nenhum e não se encontra vinculada a nenhum momento em particular”. Assim, o verdadeiro mundo virtual começa bem antes do que supomos! Ele começa com a linguagem, não com a tecnologia.

É preciso compreender que o virtual é real, ainda que não possamos fixá-lo a nenhuma coordenada espaço-temporal. Ele existe sem estar presente. Esse é um aspecto que não pode, entretanto, ser negligenciado, especialmente quando buscamos entender as relações estabelecidas a partir da cibercultura. A imaterialidade da rede virtual estabelece novas formas das pessoas se relacionarem com o tempo, o espaço, o corpo e isto têm interferência direta na subjetividade.

Por Helena Greco

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