Sócrates e o Google: há lugar para o não saber hoje?

Sócrates tomando a cicuta – Antonio Canova (Possagno 1757 – Venecia 1822)

Quase todo mundo já escutou por aí o dito socrático “Só sei que nada sei” entretanto, parece que tal enunciado voltou para os baús da antiguidade. A velocidade da cultura digital movida pela internet parece ter provocado uma redução no intervalo entre uma pergunta e sua possível resposta, posicionando ambas a distância de um clique no Google.

Lacan em seu texto sobre O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada ( 1945) coloca que o sujeito, diante de um sofisma, estaria submetido a 3 tempos lógicos: o instante de ver, o tempo para compreender e o momento de concluir.

Desta forma, para se chegar a uma resposta ou uma solução, o primeiro passo seria ver e a partir de uma visão das coisas, se é que podemos dizer assim, compreender e por fim, concluir. Para ele, “O tempo de compreender pode reduzir-se ao instante do olhar, mas esse olhar, em seu instante, pode incluir todo o tempo necessário para compreender.”(p.205)

Ao pensar também com a psicanálise, consideramos que um saber, ao contrário da informação, passa pelo corpo, tal qual o sabor, palavra da qual o próprio saber deriva. Mas por onde anda o gosto de construir um saber?

Assistimos a uma proliferação de respostas para todo tipo de perguntas, sendo muitas em estilo prêt a porter, basta escolher o link, acessar a live, ouvir o podcast.

A questão se torna ainda mais complexa quando se trata de temas da vida contemporânea, Freud já falava da dificuldade de falar de um tempo que é sobretudo o nosso, no qual ainda estamos inseridos e sem poder recorrer ao conhecimento das consequências dos fatos.

A interrogação que persiste , e para a qual a resposta também falha, é sobre o que estamos fazendo com as dúvidas que tem nos assolado diante de tantas situações absolutamente ímpares. Fica a impressão de que temos nos precipitado em mares de informações, arrastados pelo fluxo das ondas sem, ao menos, termos o tempo necessário para ver e compreender se estamos na profundidade do oceano ou na rasura da praia.
Será que professar o seu não saber levaria um Sócrates de hoje, tempos do Google, a beber cicuta?

Por Patricia Gomes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s