A tecnologia, o desejo e o amor

Cena em que Martha [Hayley Atwell] recebe a réplica do corpo de Ash [Domhnall Gleeson]. Fonte: Netflix.com

O episódio “Be right back”, da série Black Mirror, narra a história de um jovem casal que se desfaz com a morte brusca de Ash, o marido, por acidente automobilístico, provavelmente em função de sua compulsão de navegar na internet mesmo enquanto dirigia.

Inscrita em um “serviço” que visa apaziguar o luto, Martha, a esposa, vê sua vida transformada quando Ash retorna em novo corpo que ela havia “adquirido” e chega via correios. Idêntico ao original, este corpo fora criado por um sistema que aproveita tudo o que o usuário disse em vida por mensagens de texto e voz, além de imagens postadas nas redes sociais. “Ash” está ali estritamente para atender às expectativas da mulher, a esposa-cliente: ele sempre diz sim, no sexo não há falhas e tudo é explicável com base nas postagens do modelo humano no ciberespaço.

Mas essas pistas são insuficientes para elevar o corpo substituto à categoria de desejante, estando ele desabitado por um sujeito. Embora carregado de informações, o “novo Ash” está isento do saber inconsciente que, com seu caráter lacunar, permitiria sua inserção no laço social como ser de falta e, portanto, numa perspectiva não planejada pelo conhecimento científico. Sua “autenticidade” está circunscrita ao que as informações rastreadas propiciaram formatar, seus afetos e reações não sendo mais que imitações vazias, voltadas para atender aos desejos de sua “administradora”.

Sem as reações espontâneas de descontentamento, de negativa, Ash revela-se desprovido dos efeitos da dialética do desejo, bem como da própria impossibilidade inerente ao laço e o “não”, como antítese, está ausente, excluído frente a uma positividade constante e enfadonha. Logo Martha compreende que aquele corpo-máquina, formatado e produzido pelo discurso capitalista, não passa de um gadget, um brinquedo sexual feito meramente à semelhança de seu finado marido. Desse modo, quaisquer tentativas de se fazer desejar seriam infrutíferas, pois Ash jamais poderia tomá-la como objeto de desejo, já que não se apresenta como sujeito.

Texto: Márcio Rimet Nobre

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